Os altos e baixos de um empreendedor em tempo integral

Há 1 ano e meio eu saí pela porta da frente do meu último emprego, trazendo comigo um HD com meu backup, um reloginho de mesa com a foto da minha Manu e uma tonelada de dúvidas, expectativas e sonhos. Trabalhei até o último dia com o empenho de quem acabava de receber uma promoção. Evitei uma despedida formal pra não chorar e disse apenas “até mais” pros companheiros de trabalho. Fechei aquela porta, mas sei que ela ficou aberta pra mim. Não porque eu pensava em voltar. Não porque eu estava com medo de dar tudo errado. Mas porque eu sempre procurei ser assim. Nunca fui de fechar portas com aquela displicência clássica de quem diz “dessa água não bebo mais”. Deixar uma saudade boa por onde passamos é a prova de que estamos no caminho certo. A vida não para na nossa ausência, mas certamente as coisas mudam quando pessoas empenhadas vão ou vêm.

Deixar meu emprego foi o marco inicial de uma nova vida. Estávamos à deriva nesse mar de gente que corre loucamente pra melhorar uma vida que não se vive e ganhar um dinheiro que não se gasta com sensatez. Pra nós era custoso demais sair de casa logo cedo, enfrentar um trânsito já nervoso nas primeiras horas do dia e ir cada um prum lado. Afinal de contas, pra que serve uma família, se a maior parte do tempo em que você está acordado, você convive com outras pessoas? Pra que serve uma vida se ela não é vivida? Imagina você acordar todos os dias com esses questionamentos na mente. Era esse o tema de nossa rápida conversa durante nosso rápido café da manhã de todos os dias corridos. Éramos uma família pedindo socorro a nós mesmos.

Outro dia eu estava conversando com uma pessoa sobre a sensação estranha de você saber quem você quer ser, mas não conseguir ser. Talvez essa seja a condição mais angustiante em períodos de mudanças. O intervalo entre o estalo e a ação envolve muitas reflexões, às vezes estimulantes, às vezes nem tanto. E leva tempo. Mas é como empurrar um carro pra pegar no tranco. Difícil é entrar em movimento. Depois as coisas fluem mais facilmente.

Mas mesmo quem já está na de evoluir, tem lá seus altos e baixos. É certo que a consciência te mantém num patamar de serenidade. Mas os momentos de fraqueza acontecem com todo mundo. Sabendo que todas as mudanças ao longo de 1 ano e meio ainda não eram suficientes, parti de onde eu pensava que não dava mais pra caminhar. Não por me considerar pronto pra qualquer coisa. Mas porque eu estava me sentindo cansado e perdido. Quase voltei atrás em alguns pontos. Quase desejei de volta a vida “normal” pra passar mais indiferente do que nunca a todas as dores, inclusive às minhas. A primeira investida como empreendedor digital não tinha sido lá essas coisas. E ao contrário da galera que culpa gurus, eu já sabia que a responsabilidade era só minha.

Estava receoso com a possibilidade de não conseguir dar a cartada final pra consolidação de um estilo de vida só nosso, um desenho totalmente customizado pra uma vida cheia de propósito, tempo livre e abundância. Se era nosso, não poderia ser impossível. Eu é que vinha trazendo comigo a sensação de areia escorrendo entre os dedos. Talvez eu tenha vivido uma espécie de inferno astral que passou meio despercebido. E talvez isso seja também a prova de que nada é em vão quando você vive pra aprender. Os infernos astrais te ensinam muito mais.

Os tropeços que levamos são de uma subjetividade enorme. Não tem receita de bolo pra entender as mensagens do universo. Qualquer bola fora pode ser motivo pra sair por aí dizendo que a tal vida com propósito é pura balela, utopia. Mas eu tive tempo suficiente pra ver que é possível criar um caminho autêntico pra nossa existência. Vi um monte de gente dizendo ser um monte de coisa que eu queria ser. Num primeiro momento eu quis estar ali também, viver como aquelas pessoas. Mas fui percebendo que cada uma daquelas vidas foi desenhada com a originalidade de quem já sabe onde quer chegar. E cada uma daquelas pessoas formidáveis já havia encontrado seu próprio caminho.

Essa foi a grande lição aprendida. Pessoas reais criam vidas autênticas, cada um à sua maneira. E eu percebi que nós aqui, com nossa Vida Larga, vamos aos poucos desenhando mais uma história cheia de liberdade e autenticidade. Nada de estilos de vida enlatados, preconcebidos. Nossa vida é só nossa. Temos em quem nos inspirar, mas a inspiração vai até certo ponto. A partir daí seguimos sozinhos. E esse ponto é o que difere cada uma das vidas exemplares que estão pipocando pelo mundo.

horta

Um ano e meio vivendo de ponta-cabeça. Enquanto a maioria das pessoas com a minha idade já colhe frutos, eu passei o trator geral. Talvez se eu tivesse apenas optado por empreender, tudo bem. Mas não. Eu tinha que ir atrás dessa tal de qualidade de vida. Eu não queria uma empresa. Eu queria uma vida, uma vida larga. Queria ver minha filha crescer, queria ver uma horta florescer e ensinar pra minha filha que o universo respira aliviado quando cuidamos melhor da nossa água e do nosso lixo. Queria poder parar e conversar com meu vizinho. Queria poder fazer minha própria tapioca no café da manhã, sem pressa.

E entre tantos quereres, eu queria um trabalho que, ao mesmo tempo, me fizesse acordar feliz e trouxesse cada vez mais pessoas pra esse mundo onde a consciência abrange todas as esferas de uma vida. E nesse 1 ano e meio, por mais que eu ainda não soubesse exatamente que trabalho seria esse, vez ou outra algum louco me procurou dizendo que havia largado o emprego e iniciado sua própria busca por uma vida larga. E meu coração pulsou mais forte a cada “desconstrução” que eu causei.

E agora não tem mais jeito. Quando penso em um novo projeto, o parâmetro que me guia é a possibilidade de facilitar mudanças reais em pessoas que, assim como nós, querem algo além de empregos “seguros” e previsões pro futuro. E a cada novo despertar, o universo vai responder que sim. Então, cada vez mais teremos tempo e sensibilidade de olhar pro lado e estender as mãos aos que ainda nem sabem o que é qualidade de vida. Isso é o que me move, é o que me mantém firme e forte nesse propósito de julgar menos, entender mais e criar momentos propícios à evolução.

blog is cool

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Camilo Bracarense é Pai, Esposo, Designer de Interfaces, Desenvolvedor Front-End focado em WordPress e Empreendedor Digital. Trocou a carteira de trabalho por um home-office e agora empreende a vida. Pensa e escreve. Mais pensa que escreve. Sonhador, acredita que ainda vai surfar. Carrega pouca coisa em suas posses e um universo inteiro em seu coração. Já plantou algumas árvores e tem uma filha, a Manu. Falta o livro.
  • Que legal, irmão. Você e sua família de vida larga são um exemplo pra mim. Tua coragem e determinação de botar o bloco na rua e pagar pra ver, me inspiram a continuar insistindo em tentar ter uma vida larga aqui com minha galerinha de casa também. Posso estar um pouco mais longe disso nesse momento, mas mais perto do que estava no ano passado. Vamo em frente, devagar e sempre. Tudo de bom pra vc e suas meninas em 2015.

    • Márcio, vc está no melhor lugar onde poderia estar: na caminhada.

      Só não podemos desanimar e chutar o balde, pq a empreitada exige muito da gente mesmo. Esses meus dilemas expressos em texto ganham um ar poético, mas no dia a dia, o bagulho é doido, irmão.

      Um 2015 excelente pra nós.

      Grande abraço.

  • Ricardo Costa

    Muito bom, muito autêntico! =)

  • Camilo, que relato fantástico! Preciso dizer que to nessa. Ando muito perdida em relação ao meu profissional! Assim como você tambem passou pelas duvidas, eu sei o que quero mas não consigo vislumbrar como conseguir chegar a isso! Tanta coisa passa pela minha cabeça e o medo é uma delas. Mas ali dentro do meu coração tenho sentido que a hora está chegando… algo me diz que esse proposito que desejo entender está mais próximo de mim do que penso. Obrigada pela partilha! Sem sombra de dúvidas a sua história é uma inspiração e tanto para a minha caminhada… Boa sorte, Camilo! Que seu 2015 seja fantástico, repleto daquilo que está nos seus sonhos e no seu coração!

    Beijo!

    • Bruna, saudade de falar com você!
      Sei bem como é isso. Como eu disse no texto, o intervalo entre o estalo e a ação é meio sofrido. Mas eu tenho certeza de que vc está mais perto do que imagina. Pessoas do bem que se colocam em movimento, alcançam resultados. E é o seu caso.

      Bjão pra vc.

  • Jaqueline

    Muito legal esse texto. Através de exemplos como o seu estamos também dando os primeiros passos para uma vida mais larga. O começo é muito difícil, pois apesar de planos, temos dificuldades de encontrar a nós mesmos nessa caminhada. Parece que a vida que vivemos não foi a nossa, que seguimos caminhos de outras pessoas, e não é fácil encontrar nosso próprio caminho. Obrigado por compartilhar da sua história e também suas frustrações, sabemos que essa caminhada é longa, de continuo autoconhecimento e transformação de paradigmas, mas tenho certeza que o start foi dado e chegaremos lá. Grande abraço a você e sua linda família!

    • Jaqueline, os primeiros passos são realmente mais difíceis. Essa inquietude de buscar um propósito e não saber bem onde procurar e como procurar gera ansiedade, às vezes angústia. Nós aqui ainda vivemos esses momentos, mas acho que de maneira mais serena.

      Essa sensação de viver uma vida que não é nossa é o começo de tudo. Pode ter certeza de que vcs estão no caminho certo. Os caminhos do coração são sempre os mais certos, embora muitas vezes surtirem resultados inesperados ou até mesmo indesejados.

      Se precisarem de algo pra dar um embalo nessas mudanças, estamos aqui

      Abração!

  • Pingback: Leituras da semana | Frugalidades()

  • incrível. tudo o que eu precisava ler hoje.

    • E é isso que me faz ganhar o dia. Saber que alguém precisava ler o que eu escrevi. Te devo essa 😉

      Abraços!

  • Camila Simões

    Seu texto mexeu muito comigo nesse momento. Estou exatamente na fase de achar que isso não é pra mim e que entrar no sistema é mais fácil. Por outro lado tem sempre algo dentro de mim que me empurra, me diz que não estou louca, que posso seguir em frente, e que, o que eu realmente preciso descobrir é em como entrar em movimento. Obrigada por compartilhar sua vida, você nos ajuda, nos inspira e nos faz seguir. Sem clichês. Realmente me sinto assim.

    • Oi, Camila.
      Essa sensação fica sempre em volta da gente mesmo. Mas o empreendedorismo exige uma boa dose de persistência. A gente só precisa ficar firme quando bate o desespero, o cansaço e os questionamentos.

      É um prazer dividir minhas experiências pra inspirar outras pessoas.

      Abração.

  • Amanda Costa

    Delícia de texto! Muito em breve também vou tomar esse caminho. Que o Universo continue te mandando oportunidades e alegrias próprias de quem sabe ouvi-lo. Beijo!

    • Força pra você tomar seu caminho, Amanda! E me dê notícias sobre a sua caminhada.

      Bjo!

  • Luiza Della Nina

    Sensacional!!!! Parabéns pela iniciativa! Tô me inscrevendo agora no seu curso! Bora sonhar e realizar e ajudar junto!!

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