O Caminho de volta de todas as coisas

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Os aprendizados dessa vida são como louça na pia. Haja o que houver, eles estão lá, assim como as eternas louças pra lavar. Se você participa da administração de uma casa, sabe do que estou falando.

E nessa minha mania ocidental de querer explicar e talvez justificar tudo, percebi que todos os novos caminhos que trilhamos pedem um percurso de volta. A passagem nunca é só de ida. Mas, pasme, a volta nunca vai ao ponto de onde saímos. Isso porque quando voltamos, não somos mais os mesmos. A ida nos modificou. E a expressão que talvez melhor ilustre esse mistério é “as portas que se abrem nunca mais fecham”.

Não estou falando de portas corporativas, oportunidades de trabalho, networking… Estou falando das portas da percepção. Aquelas que te ensinam, por exemplo, que somente o bem comum pode tornar pleno seu próprio bem. As mesmas que te dizem que devemos nos comportar de maneira inédita se quisermos continuar habitando este planeta. As mesmas que, aos poucos, te aproximam do que você quer ser de verdade.

Definições de “portas abertas” atualizadas com sucesso.

Nós somos um emaranhado de experiências. Somos o resultado de uma equação, cujas variáveis são nossas lembranças, o que herdamos de nossos ancestrais, nossos relacionamentos, nosso alimento, nossos hábitos e por aí vai. E o resultado dessa equação é diretamente proporcional ao que fazemos com essas variáveis, à maneira como devolvemos tudo isso ao universo.

Daí a importância do caminho de volta. O que um dia me causou mágoa, hoje me desperta aceitação. O que já me foi indiferente, hoje pode ser motivo de gratidão. Minha história com minha família, antes repleta de não entendimento, hoje me ajuda a perceber o quanto é saudável perpetuar nossa história, mas que é muito importante cessar certos condicionamentos herdados. Como dizia um tio querido, “precisamos matar nossos pais dentro de nós”. Levei anos pra entender essa expressão e compreendo perfeitamente se lhe causar estranheza neste momento. Que minha filha ame nossa história, mas que ela saiba cessar o que não conseguirmos cessar juntos.

Revisitar meu passado tem sido uma experiência positiva. É uma prática que ajuda a me explicar melhor, de maneira mais positiva. E quando digo “me explicar”, não me refiro a explicar algo a alguém. É me explicar pra mim mesmo, é me desconstruir, me perdoar, me responsabilizar sem me culpar e, consequentemente, me amar mais e melhor. E é curioso como esse caminho de volta nunca é o caminho de ida, como sugere a lógica. A cada “ruminada” do que você tem feito, suas razões reais encontram muito mais fundamento, sua certeza de que tudo foi como deveria ter sido exatamente até o último segundo anterior só aumenta. E ao gerar essa clareza, os pensamentos limitantes vão sumindo.

No trabalho não tem sido diferente. Depois de um período de conquistas importantes, alguns tropeços e meia dúzia de desilusões (apesar da não expectativa), eu precisei parar pra entender melhor essa salada de informações que é a vida empreendedora.

E vamos combinar que neste texto fica de lado aquele paradigma de que empreender se resume a ter um cnpj e fazer negócios. Meu empreendimento começa em mim e vai muito além do que alcança minha vista, onde quer que eu vá. Nem do alto das serras mais altas das minhas Minas Gerais eu enxergo minhas fronteiras. Simba, o Rei Leão, invejaria o tamanho do meu império. Empreender é equilíbrio, integralidade, autoestima elevada e cuidado consigo e com o próximo. Erro pra caralho em todos esses aspectos, mas passei a tentar acertar também em todos eles.

Meu trabalho já me fez passar por bons e maus momentos. Mas nem todos os momentos maus são 100% ruins. Alguns momentos ruins vêm quando questionamos nossas condições atuais. E isso é necessário.

A real é que mesmo seguindo seus sonhos, você ainda pode cair na cilada de ter um trabalho que proporcione uma vida e não viver a tal vida. E estou certo de que muitas são as causas de uma insatisfação profissional. A resposta não está somente nos suspiros de emoção que você tem ao pensar que encontrou seu propósito. Passa muito mais água embaixo dessa ponte. O rio é fundo e caudaloso. O rio é sua vida revirada por você, no intuito de descobrir por que erra tanto, independente do quanto acerta. Haja equilíbrio emocional.

Buscar respostas no caminho que percorri faz com que eu desenvolva um enorme sentimento de gratidão. Além de me colocar em contato com projetos e pessoas sensacionais, meu talento, antes negado por mim, é um recurso importantíssimo pra dar forma às minhas ideias e aos sonhos de vários outros empreendedores no universo digital.

Parte da minha desconstrução consiste em analisar os frutos do meu trabalho. O envolvimento em vários projetos legais e as amizades sólidas que nasceram desses projetos me fazem querer continuar. Ganhei alguns irmãos e irmãs espalhados pelo mundo. E essa situação de estar meio angustiado com o trabalho, mas desempenhá-lo com capricho e ter resultado e reconhecimento por parte de gente querida, me confunde. Se me confunde, eu preciso ficar e aprender. Não se trata de mais uma vez dar as costas pra algo e simplesmente mudar. Algo me diz que se eu fugisse, o fantasma se esconderia em meus guardados pra continuar me assombrando onde quer que eu fosse. Quando me assisto num ângulo de terceira pessoa, vejo um cara vivendo uma vida que eu desejava viver num passado muito recente. A possibilidade de trabalhar com pessoas ótimas, as amizades, as perspectivas, os resultados, a evolução espiritual, a liberdade… Mano, que vida foda!

O caminho de volta me faz reavaliar o papel das pessoas em minha vida e o meu papel na vida das pessoas; me ensina que na treta também mora o amor e que assim como amamos as situações em que nos sentimos seguros e acolhidos, devemos amar também as situações em que somos levados ao enfrentamento da nossa verdade mais profunda e à auto avaliação. Feliz de quem encontra esse enfrentamento no amor e o amor nesse enfrentamento. São coisas que só me fazem crer que todas as possibilidades entre dar certo e dar errado estão sempre dentro de nós.

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Camilo Bracarense é Pai, Esposo, Designer de Interfaces, Desenvolvedor Front-End focado em WordPress e Empreendedor Digital. Trocou a carteira de trabalho por um home-office e agora empreende a vida. Pensa e escreve. Mais pensa que escreve. Sonhador, acredita que ainda vai surfar. Carrega pouca coisa em suas posses e um universo inteiro em seu coração. Já plantou algumas árvores e tem uma filha, a Manu. Falta o livro.
  • Oi Camilo, muito bom o texto. Voltar é sempre bom, é sempre um começo que de uma forma ou de outra queremos fazê-lo com honestidade e muito amor.
    Tudo contribui: os enfrentamentos, os amigos, as novas e as velhas experiências e mais do que isso, a vontade de fazer tudo igual mas diferente. A vontade de ter o diferente, fora dos padrões básicos e ainda assim sendo normal.
    É bom voltar e é bom contribuir para que o universo contribua também com a gente!
    Abraços grandes. Bom saber que voltaram. Gosto de lê-los! 🙂

    Tê e Maria ♥
    @bolhinhasdesabaoparamaria

    • Oi, Teresinha. Bom ver você aqui 🙂
      Acho que é bem isso mesmo. Passar a olhar com amor pro que passou em nossas vidas nos ajuda a explicar e acolher muitas verdades. Aprendemos a lidar com os erros e acertos de outra forma. Acho importante esse exercício. Me ajuda a ter mais clareza pra detectar melhor minha parcela de responsabilidade nos frutos que eu colho.
      Abração pra você!

  • “E essa situação de estar meio angustiado com o trabalho, mas desempenhá-lo com capricho e ter resultado e reconhecimento por parte de gente querida, me confunde. Se me confunde, eu preciso ficar e aprender.”

    Camilo quero te dar um abraço!!! 😀 Cara, você tem uma sensibilidade incrível, de conseguir traduzir as coisas em palavras de forma belíssima e muito clara!

    Que bom que voltaram! 🙂

    • Natália, fiquei emocionado com seu comentário. Juro!
      Escrever assim é visceral. Eu termino o texto me sentindo como uma espécie de médium que acabou de psicografar algo. Uma mistura de cansaço com sensação de dever cumprido. Acho que você sabe bem do que estou falando 🙂

      E que bom ver você aqui! 🙂

Vida Larga

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