Faça o que você ama ou morra tentando – Parte 2

guernica

Essa semana fui chamado de fake. Justo numa época em que eu, mais do que nunca, venho fazendo o difícil exercício de sentar de frente com minha verdade, fui chamado de fake.

Após ver meu texto republicado em um blog e, lá no final, o comentário “Soa tããão fake…”, me peguei pensando em várias respostas. Resumidamente, o que predominou em meus pensamentos foi dizer ao autor do comentário que talvez ele tivesse razão, que aquilo dito daquela forma parecia bom demais pra ser verdade, equilibrado demais pra ser humano, certinho demais pra ser brasileiro, descolado demais pra ser mineiro.

Mas pensei também que talvez não fosse justo comigo falar assim de mim mesmo. O texto era só uma maneira meio poética de contar que eu havia construído uma realidade legal pra mim e que algumas coisas que antes pareciam antagônicas, na verdade careciam de andar juntas.

O texto em questão fala de trabalho e clicando aqui, você pode lê-lo na íntegra. E a partir de hoje, fica sendo a Parte 1 deste, não tão florido assim, mas igualmente pensado pra ajudar de alguma forma.

Planejar uma resposta pro rapaz me consumiu um tempinho. Não me senti mal em nenhum momento e não o julguei pelo comentário. Apenas pensei em vários caminhos pra explicar a ele que não, meu texto não é fake.

Mudar a opinião dele com relação a mim não é importante. Aliás, a opinião é só sobre o texto; nada pessoal. Mas talvez ajude saber que existem realidades muito próximas das que nos aprisionam, em que a liberdade de escolha é algo corriqueiro. Não que eu ou você estejamos totalmente livres. Acredito que se estamos aqui, temos tretas a resolver e liberdades a conquistar. Afinal, quer prisão maior que o corpo físico, que desperta em nós necessidades como roupas, tatuagens e adereços?

Mas me incomodou reler meu texto. Comecei a pensar que quando o escrevi, talvez ainda não fosse a hora de falar sobre isso. As cortinas ainda estavam se abrindo pra mim e algumas verdades inconvenientes sobre manter a vida fora de certos padrões ainda estavam por vir. Só que o texto já está lá, o Google indexou, um monte de gente leu, o Conti Outra republicou e o Phillipe chamou de fake. Então, vida que segue. Tarde demais pra tirar do ar.

Bom, pra começar, do dia em que escrevi a parte 1 até hoje, eu vivi momentos de extrema insegurança. Gerei expectativas que não correspondi, me envolvi com pessoas e projetos que não tinham nada a ver comigo, torrei a grana que ganhei sem o mínimo de planejamento e deixei que tudo isso interferisse na minha vida pessoal.

Aquela comunhão entre vida e trabalho, que a gente tem achado tão linda, aconteceu em minha vida. Eu pensava o tempo todo em trabalho, produzia pouco e me mantinha ocupado quase o tempo todo. Só não deixei de viver coisas lindas, como o desenvolvimento da minha filha, porque eu estava sempre em casa. Talvez se estivesse numa empresa recebendo ordens de alguém, teria aproveitado melhor esses momentos. Pronto. Este parágrafo resume meu ano de 2015 e parte de 2016. Não entrei em nenhum tipo de enrascada grande, nem prejudiquei ninguém. Mas aprendi o quanto a diferença entre expectativa e realidade pode causar mal estar.

Pra minha sorte (ou merecimento), pessoas e projetos maravilhosos surgiram também nessa fase de submersão. Me agarrei nessas pessoas e nesses projetos pra segurar minhas pontas. Por fim, percebi que tudo aquilo era um renascimento pra mim. Assim como os recém nascidos não conhecem bem a verdade que vem pelo parto, eu não conhecia bem a verdade que vem pelo empreender.

Soa clichê? Experimente então, pela primeira vez na vida, ser responsável por determinar seu tempo de produção, seu custo de vida, suas próprias regras de trabalho. Desenvolva um método de expressar sua criatividade enquanto sua filha de 5 anos descobre o mundo e quer dividir as descobertas com você. Pague suas contas, dobre suas roupas, faça almoço e pelo menos uma reunião, tudo isso num dia só. Saia pra almoçar fora, divirta-se e mantenha intacto o caixa de sua empresa de um homem só. Traga seu trabalho pra perto de sua vida, veja como a ordem e o caos andam lado a lado e perceba que em certos contextos isso é como juntar o isqueiro e o estopim. Tente não explodir.

Minhas escolhas mal feitas abalaram meu emocional. Senti frustração, medo e vontade de voltar atrás com um monte de coisas. Fui ao inferno e voltei tantas vezes quanto foram necessárias pra tentar entender o que estava errado em minha vida empreendedora. Fiquei diante de mim e reconheci minhas limitações, minha imaturidade pra certas coisas e minha capacidade de me enganar só pra me livrar de minha responsabilidade, que na verdade é minha maior riqueza. Mas eu tinha muito claro em minha mente que voltar atrás ou insistir era algo que dizia respeito somente a mim e à minha família. Em momento algum me senti intimidado com a possibilidade de alguém me julgar por uma coisa ou outra.

O balanço disso tudo é que a parte florida da história realmente não agregou muito em minha vida. O que fez a diferença mesmo foram os erros, os perrengues, as noites em claro pra cumprir os prazos e as pessoas que me colocaram diante de mim mesmo. Seja pelo amor ou pela dor, cada uma delas me mostrou um pedaço de mim que escapava à minha vista. O que me fez melhor foi o amor, que muitas vezes me tirou da minha zona de conforto, e as furadas, que eu mesmo me incumbi de disfarçar e dizer quer tudo era lindo.

O que aconteceu de ruim se resolveu. Não varri nada pra debaixo do tapete. Encarei cada assunto pendente, refiz o que precisava ser refeito e desfiz o que precisava ser desfeito. As pessoas queridas ficaram de uma forma ou de outra. Com algumas eu aprendi que a amizade poderia ser nosso melhor negócio e que trabalhar junto não era uma opção. Com a ajuda de outras, me tornei um profissional muito melhor.

Não vem ao caso dizer aqui com quem ou com o que eu trabalho agora. São detalhes que compõem a minha realidade e dificilmente acrescentariam algo em sua vida. O que cabe dizer aqui é que você realmente deve fazer o que ama ou morrer tentando. Hoje eu amo meu trabalho como nunca amei e ele se parece muito com algo que não servia pra mim há bem pouco tempo.

Por fim, tome cuidado com as cenas que sua mente constrói pro seu futuro. Esse futuro vai chegar e é bem provável que ele se apresente de outra forma. Saiba reconhecê-lo ou sua angústia não terá fim. Você é capaz de gerar valor pras pessoas, esteja onde estiver. Não vai ser um pedido de demissão e um diploma de coach que farão você fazer a diferença. Não que haja algum problema em fazer isso, mas o propósito não está somente em empreender ou palestrar pra centenas de pessoas. O cara da baia ao lado da sua, em seu emprego que muitos classificam como medíocre, pode estar precisando somente de um sorriso seu pra ter um dia melhor. Faça seus planos, mas não espere nada acontecer pra melhorar seu mundo.

E Phillipe, ser feliz é possível. E a felicidade, por vezes, é contada de maneira poética. Mas a minha poesia está em pairar sobre o cotidiano e ao mesmo tempo colocar comida na mesa. E isso eu faço desde aquele tempo.

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Camilo Bracarense é Pai, Esposo, Designer de Interfaces, Desenvolvedor Front-End focado em WordPress e Empreendedor Digital. Trocou a carteira de trabalho por um home-office e agora empreende a vida. Pensa e escreve. Mais pensa que escreve. Sonhador, acredita que ainda vai surfar. Carrega pouca coisa em suas posses e um universo inteiro em seu coração. Já plantou algumas árvores e tem uma filha, a Manu. Falta o livro.
  • Flavia Melissa

    amo tanto que queria morar do lado, só pra poder bater na porta e dar um abraço.

  • Mamãe Fotógrafa

    Preciso agradecer ao Philipe pelo comentário. Se não fosse ele, não estaria tendo a oportunidade de ler um dos melhores textos que já li sobre “empreender”. E que, não tem nada de fake, é vida real pura. Te admiro muito amigo!

    • Philipe só me despertou coisa boa 🙂
      Gratidão pelas palavras e por fazer parte dessa jornada, Jaque!

  • Delion

    Camilo, conheço sua história acredito que como poucos. Sei que seu coração e seu cérebro são voltados ao bem comum. Se tem um cara que nunca pensa em primeira pessoa é você, nada é fácil, nada é lindo e maravilhoso, mas parece que para alguns tudo é negro e eles fazem questão que todos vejam o mundo por esse prima. Quando alguém diz que é feliz, isso os incomoda.
    Abração e te esperamos em Foz em breve.

    • Isso aí, meu amigo. Como eu disse no texto, a poesia está em viver a rotina acolhendo cada aprendizado que às vezes nem percebemos. Isso nos faz felizes, mas nem todo mundo percebe. Em breve vamos matar a saudade daquele risoto regado a boa prosa. Grande abraço.

  • Mi Mendes

    Uau, que lindo ler essas palavras! Gratidão à Flávia Melissa, pois através dela encontrei este lindo blog, e gratidão a você por compartilhar tudo isso conosco!

    • Oi, Mi. Que bom que você gostou. O Vida Larga é um espaço em constante transformação. Vamos compartilhando nossas metamorfoses em busca de dias ainda melhores. Seja bem-vinda!

  • Marilda Rocha

    Entrei no portal Despertar a procura de alguma coisa que me sentisse melhor do que ontem, e comecei a passear pelos parceiros do Portal e encontrei as mãos da Rúbia Ribeiro me chamando a entrar em seu facebook, e dai cheguei aqui. Muito emocionada com suas palavras, me senti abraçada e acolhida, e tenho certeza que meu dia será melhor que ontem. Gratidão Camilo.
    Posso compartilhar seu blog no grupo do facebook?

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